Mercado educacional segue no alvo dos investimentos

Mercado educacional segue no alvo dos investimentos

5 minutos de leitura

Na rota dos grandes investidores, o mercado de educação vive um momento de expansão no Brasil. Nos últimos anos, o governo tem incentivado o desenvolvimento do setor, diminuindo a burocracia para a abertura de novas faculdades, o que atraiu investidores de todo o mundo. Segundo o último Censo da Educação Superior, divulgado pelo INEP em 2015, as instituições de ensino superior (IES) privadas representam 87,5% do total.

Em todo o país, os grupos educacionais que recebem aporte financeiro estrangeiro ainda não apostam em um processo de internacionalização da educação, embora cogitem um maior intercâmbio cultural nos métodos de ensino, aponta o consultor financeiro da BLB Brasil, Yuri Areco. “Todavia, com o aporte estrangeiro, geralmente é importado o modelo de gestão, controle, profissionalização, marketing e outros aspectos administrativos e financeiros”, afirma Areco.

De acordo com o consultor, na educação básica, esses movimentos econômicos ainda são mais recentes e em fase de desenvolvimento. “O grande objetivo dos grupos de investimento da área educacional é o aumento da rentabilidade através de ganhos de escalas, com um portfólio de professores multidisciplinares e o desenvolvimento de conteúdos online. Tais características que já vem se materializando há tempos na educação superior agora começam a se intensificar também na educação básica”, ressalta.

Base sólida para a construção de uma sociedade mais consciente e igualitária, a educação, entretanto, possui muitos desafios em nosso país, desde o ensino básico até o superior. Um dos principais fatores que motiva o interesse dos investidores é o baixo número de adultos brasileiros que chegaram ao ensino superior: 14%. A média dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) é de 35%, segundo a publicação Education at a Glance 2016, da OCDE, que comparou dados de mais de 40 países, incluindo o Brasil.

Apesar de ter registrado em 2015 um aumento no número de formandos em todo o país: 1,150 milhão ante 1,027 milhão em 2014, o número de novos estudantes caiu no mesmo período – a primeira vez desde 2009. O momento político-econômico nacional e as restrições do Fies (Financiamento Estudantil) pelo governo federal contribuíram para o declínio no número de novos matriculados, principalmente nas instituições privadas.

Ao todo, o Brasil possui 2.364 instituições de educação superior, sendo 2.069 privadas. A região Sudeste concentra 47,3% desse total, seguida por Nordeste (19,3%), Sul (17,1%), Centro-Oeste (10%) e Norte (6,3%), aponta o Censo da Educação Superior 2015.

Tamanho de mercado

“Se utilizarmos como base o grupo Kroton, que possui valor de mercado de R$ 28,19 bilhões e cerca de 1 milhão de alunos, e considerarmos que o Brasil possui 6 milhões alunos no ensino superior privado, poderíamos dizer que o mercado de educação superior privado no Brasil seria da ordem de R$ 169 bilhões, caso todo o mercado operasse no mesmo padrão de eficiência da Kroton”, calcula Tarcísio Villela, consultor da Hoper Educação. Porém, o consultor pondera que a média do mercado tem uma performance gerencial inferior à da Kroton. De acordo com os dados divulgados em seu resultado trimestral, o grupo atingiu no 2º trimestre de 2017 a margem operacional de 56%. “A média do mercado, analisando a estratificação do número de IES por tamanho, permite estimar que a margem operacional média do setor como um todo seja de 15%, o mercado total de educação superior privada no Brasil seria de R$45 bilhões aproximadamente”, enfatiza Villela.

Leia também -  8 documentários sobre o mercado financeiro que você tem que assistir

Com o objetivo de ampliar a oferta de cursos no ensino superior, o Ministério da Educação (MEC) publicou, no último mês de junho, uma portaria que acelera e flexibiliza a implantação de cursos superiores na modalidade a distância. De acordo com o MEC, a portaria possibilita o credenciamento das IES para cursos de educação a distância (EaD) sem o credenciamento para cursos presenciais.

Segundo Villela, essa portaria é extremamente importante para o ensino superior como um todo. “Anteriormente, uma licença de ensino presencial era a que tinha mais valor, exatamente por permitir que uma instituição operasse em determinada cidade. Com a mudança, e principalmente com a flexibilização adquirida, a licença do ensino a distância passa a oferecer às instituições a possibilidade de abrir novos polos EaD em todo o país”, opina Villela.

Outro assunto que gerou forte repercussão no mercado educacional nos últimos meses foi a onda de fusões e aquisições que movimentou o setor, principalmente a reprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), no último mês de junho, da operação de compra da Estácio pela Kroton Educacional. A operação, avaliada em R$ 5,5 bilhões, criaria gigante do setor de ensino no país.

Para Areco, o intenso volume de fusões e aquisições no mercado educacional é preocupante, pois levanta discussões e dúvidas sobre o tratamento que será dado ao ensino brasileiro: se apenas o lucro será buscado ou também a qualidade. “Com o domínio do setor por um seleto grupo educacional, os riscos e as consequências desse novo modelo de governança atingem diretamente a educação superior, principalmente no que se refere a preço e qualidade do ensino”. “Do ponto de vista da qualidade, os benefícios do negócio também são questionáveis, já que ganhos de escala podem ser interessantes para os resultados financeiros, mas comprometem o acompanhamento individualizado dos alunos, valioso na educação”, conclui.

Para os próximos anos, Villela acredita que o número de fusões e aquisições será maior na educação básica em relação ao ensino superior. No entanto, o consultor salienta que o mercado educacional como um todo depende que a economia esteja em uma situação melhor para melhorar o ritmo de crescimento. “O atual momento vivido pela economia acaba fazendo com que as pessoas tenham muita dificuldade por optarem pela educação particular. No ensino superior, o candidato, em momento de crise, deixa de tomar a decisão de se matricular. Já na educação básica, as famílias, em último caso, acabam optando por colocarem seus filhos em escolas públicas.

Roberto Kamarad
Matéria originalmente publicada no site Experience Club.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *